Quinta-feira, Março 04, 2004
Eu coleciono santinhos. Estes que a pessoa faz o milheiro para agradecer a graça alcançada. É certo que não há quem não possua um retratinho de Santo Expedito na carteira, para aquelas causas urgentes e/ou impossíveis que acontecem na média umas 3 vezes por dia. Santo Expedito é pop. Um superstar dos problemas de difícil solução (como trânsito engarrafado que faz a gente se atrasar pra reunião importante, telefone que não toca etc), cuja invocação nunca é tardia. Na foto ele está pisando num corvo que grita cras (amanhã!), numa mão segura uma cruz onde está escrita a palavra hodie (hoje!) e na outra mão segura uma folha; ele está, literalmente, com as mãos e os pés ocupados. Santo Expedito está sempre atolado com nossos problemas, mas não deixa pra amanhã, ele tira da frente. Como diz Pedro Bial, ele é o nosso herói. Os santos foram pessoas incríveis, que em algum momento se destacaram na sociedade por refutar a sociedade e abraçar uma causa misteriosa e desconhecida, na qual eles botavam muita fé. E assim, de marginais e excluídos na sociedade, eles passaram a heróis fora dela. Como São Calisto, que foi escravo, errou, pecou, foi preso, solto, preso de novo, se regenerou e virou papa. Ou Maria Madalena, pecadora por devoção, mudou de idéia ao ser salva de um apedrejamento. Podia ser você. Ou, considerando-se minha vida sexual pregressa, eu. Eles são nós amanhã. Quando finalmente Deus nos der um sinal que comprove sua existência e justifique nosso abandono da sociedade. Ganhasse você as chagas de Cristo depois de uma temporada no meio de um mato sem cachorro e cheio de lobos, tal qual São Francisco, se convertia ou não se convertia? Eu, no ato. E olha que eu já pedi muito sinal pra Deus. Tipo: - Se ele ligar agora eu juro que rezo dois terços e dou comida aos pobres. Ok, a promessa é meio vaga: quantos pobres? O que você quer dizer com comida? Eu nunca especifico muito bem minhas promessas. Até porque meu coração é puro e sincero, e eu gostaria de alimentar muitos pobres. Mas se eu disser quantos, Deus pode achar pouco. Por outro lado se eu disser que vou alimentar muitos, estaria blefando, usando da minha sinceridade para alcançar meu objetivo; quem garante que eu vou ter tempo para alimentar tantos pobres? E se eu vou ter dinheiro pra fazer tanto sanduíche de pão com salsicha? E se Deus souber que quando eu disse “alimentar” eu pensei pão com salsicha e achar que eu sou munheca, uma vez que se o pedido se concretizar eu vou botar a mão numa grana preta, mesmo que a Sena acumulada saia pra mais de um apostador? Por isso eu deixo no ar. Talvez por isso eu nunca tenha recebido um sinal: eu não tenho sido clara o suficiente. É a única explicação, pois se até São Tomé, que ousou perguntar o porquê de acreditarmos no que nunca vimos, recebeu não um, mas vários sinais. Uma vez eu perguntei: -Deus, se eu não fui clara o suficiente, me dê um sinal. Neste exato momento a luz do banheiro queimou (muitas vezes somos surpreendidos pela fé nos mais improváveis cômodos de nossas residências). Mas eu não encarei isto como propriamente um sinal; ela já havia piscado em outra ocasião, quando eu disse ao espelho que se fosse preciso eu faria um pacto com o diabo para acabar com meus culotes e com a celulite.Acredito que tenha sido o vapor de água o causador do incidente. Enquanto esperamos um sinal que justifique abdicar de confortos como água encanada, luz elétrica e sauna a vapor seguida de exfoliação e massagem com óleos aromáticos no spa do Hotel Emiliano, os santos, estes desbravadores crédulos, vão fazendo a ponte entre Deus e a humanidade. Afinal de contas, graças ao sacrifício da fé eles conquistaram a amizade de Deus. E por terem desenvolvido um excelente trabalho junto ao público, receberam também sua admiração profissional. Eles ocupam a posição de intercessores junto ao senhor e seu filho. Funciona mais ou menos assim, há três guichês: uma para os pedidos que hão de se realizar com a graça de Deus nosso senhor, outro para os desejos a serem atendidos para a honra e a glória de Jesus, e aqueles confiados ao divino Espírito Santo. Os santos entram com o pedido em um destes guichês, e advogam em nosso favor caso o processo emperre. Quase como era o processo de visto para os Estados Unidos antigamente. Os santos são nossos despachantes espirituais. É por isso que eu sou fã e coleciono. Aliás, estou atrás de um São Cirilo. E quem estiver precisando de uma da raríssima Santa Filomena, que promove paz interior e sossega o coração atribulado, me avise. Eu tenho pra troca.
Sexta-feira, Fevereiro 20, 2004
Dizem que não há nada a temer a não ser o próprio medo. Ótimo, agora eu tenho medo do medo também! Eu tenho um medo infantil da morte. É uma coisa incontrolável: eu estou chegando tarde da noite na garagem do prédio, aquele silêncio perturbador, eu estou de costas esperando o elevador, alguém bate no meu ombro, eu viro... e é a morte. Aquela mesma, de desenho animado, do filme Pânico. Um frio polar endurece minha espinha dorsal. Eu digo: -Ai dona Morte, agora não, por favor, eu tenho tanto por fazer. É patético; eu me humilho, choro, me jogo aos pés dela em súplica. Ela é irredutível. Ela me joga numa Kombi preta com insulfilm - o que me deixa ainda mais apavorada porque alguém aí já viu uma Kombi preta? Preto não é cor original de Kombi, aquele com certeza é um veículo alterado clandestinamente - e lá vamos nós para a morte eterna.
As pessoas dizem que têm medo não da sua própria morte, mas da morte dos outros. Eu não; quando morre alguém minha alma se enche de alívio: -Morreu? Antes ele do que eu. A morte dos outros só serve pra nos conscientizar da nossa própria, é por isso que eu acho que o melhor negócio é morrer naquela fase da vida em que a gente ainda se acha imortal. A conscientização do inexorável torna as coisas muito mais difíceis. Gastar dinheiro por exemplo torna-se uma atividade desafiadora. Eu que já sou munheca então, cada vez que ponho a morte em perspectiva, fico ainda mais mão de vaca. Relógio, por exemplo, é um produto que eu me recuso a comprar. Até ganho, mas pagar do meu bolso, jamais. E pensar que tá cheio de nego aí que dá seis mil dólares num relógio. -Este aqui tem gps, avisa quando tem radar de velocidade, conta historinha pra eu dormir e tem um cronômetro regressivo de alta precisão que avisa exatamente a que horas você vai morrer.Meu medo é morrer num dia em que eu tô cheia de coisa pra fazer, tipo: supermercado, pagar
IPVA, tirar dinheiro pra empregada... Com filho então a coisa realmente muda: não é que eu não queira morrer, agora eu não posso morrer. Eu já pensei em negociar com ela, tipo, viver que nem o incrível Hulk, de cidade em cidade, escondendo de todos o meu terrível segredo da imortalidade. Mas eu infelizmente sei que ela não iria aceitar.
Por isso é que eu estou me preparando pra o momento final, pra que o meu encontro com Sra. M seja mais vantajoso pra mim do que pra ela. Quem sabe assim eu ganho tempo até que a ciência descubra algo que realmente importa, como um forno rejuvenecedor ou uma maneira de transformar esgoto no elixir da vida eterna.
Assim: ela chega pra me pegar, e espera 20 minutos, meia hora, cinqüenta minutos e nada. Daí eu chego, e ela tá puta: - Graziella, uma hora de atraso?! E eu, com com a cara mais estressada do mundo, digo: - Ah não!!!! Já basta o que me aconteceu!
E passo batido.
Terça-feira, Fevereiro 17, 2004
Eu começo a desconfiar que este negócio de blog não é pra mim. Como em tudo que eu faço, mas uma vez me joguei de cabeça numa coisa que eu não sei bem o que é. Eu me julgo capaz de aprender qualquer coisa. Na verdade, eu me julgo muito capaz, capaz demais, tipo se eu quisesse eu poderia ser diplomata, astronauta ou até mesmo boa de matemática. Só não fui nenhum destes porque não quis. Se eu quisesse mesmo, eu conseguiria. Pra mim nada é impossível. E foi com o espírito de "chegando lá eu me viro" que eu convoquei minha irmã nerd a abrir um desses blogs pra mim, e ela me ensinou a postar e até colocou uma foto do Elvis, o homem que eu sempre amei. Digamos que eu tenha lido uns vinte blogs antes de ter o meu. Ok, dez. Seis e não se fala mais nisso. Eu achava que eu sabia tudo que há pra saber. Eu sempre acho que eu sei tudo. Só que me escapou o fato de um blog ser um diário. E na empolgação eu avisei as pessoas. E agora todos me perguntam quando é que eu vou postar. E eu me surpreendi duplamente: primeiro por estarem lendo meu blog (o que é que eu queria depois de ter enviado uma nota a todos os que habitam minha lista de endereços?), e segundo porque aparentemente ninguém mais tem internet discada. Mais uma vez eu me acho bem sabichona, mais uma vez eu banco a fodona, mais uma vez todo mundo me leva a sério, mais uma chance para eu me mostrar uma fraude! A verdade é que eu nunca deveria ter começado um blog. O conceito de qualquer coisa que necessite atualização diária contraria tudo o quanto há de mais autêntico na minha personalidade, aquilo que me impede por exemplo de pintar os cabelos ou manter uma atividade física diária: a manutenção. Aqui você encontra uma mulher de 31 anos que nunca pintou os cabelos na vida, e acredite em mim, pois se eu os pintasse você seria o primeiro a saber: os sete dedos de raiz não me deixariam mentir. Todos os meus diários de infância e adolescência não ultrapassam três páginas recheadas com minhas inocentes memórias. Em alguns dias, apenas uma frase: Hoje eu encontrei a Palú e o Mosca; o que é que ele pens Ainda bem que eu posso contar com a minha memória, pois se fosse confiar no diário pra lembrar do passado eu morreria de curiosidade.Toda vez que eu depilo a perna, a depiladora me faz jurar que eu nunca mais vou deixar os pelos crescerem daquele jeito. E eu juro com sinceridade. Cinco meses depois lá estou eu, peluda feito a Monga do Playcenter, procrastinando a depilação do período da manhã para o período da tarde, suando em bicas num calor carnavalesco, tomando banho de porta trancada pra não ter que encontrar meu marido no claro do dia. E não é pela dor; eu sou ultra resistente para dores em geral. Segurei as contrações do parto na unha. Minha filha nasceu uma hora depois de eu ter chegado na maternidade. De parto normal. Assim que a anestesia bateu a médica me mandou empurrar. Meu problema é com conclusão mesmo. Comecei a bordar uma almofada de ponto cruz quando descobri que estava grávida. Minha filha tem quatro meses e o palhacinho só tem uma perna. Eu tenho dezessete peças inacabadas, oito roteiros de filme, dois excelentes argumentos de ficção. Pra dizer a verdade, é quase um milagre que vocês estejam lendo estas linhas agora. Vocês deviam me parabenizar pela conquista. E não, eu não sei como se faz pra instalar aquele negócio onde vocês podem comentar.
Sexta-feira, Fevereiro 13, 2004
A grande vantagem de se morar numa cidade como São Paulo é que você sempre pode usar o trânsito como desculpa que ninguém vai desconfiar que é mentira. Tem sempre uma obra, um acidente, e agora o mais novo lançamento, que é a rua que muda de mão da noite pro dia.
Se tem uma coisa que eu entendo, é de desculpa pra atraso; é uma das minhas especialidades. Sim, porque há muito tempo eu desisti de lutar contra isso: eu vivo atrasada pra tudo, não tem o que me faça chegar no horário. Eu já nasci atrasada; a bolsa da minha mãe estourou numa sexta-feira, eu só nasci na segunda à noite.
Técnicas? Já usei todas. Se eu acordar uma hora mais cedo, eu já tô meia hora atrasada. Se eu começar a me arrumar ontem à tarde, eu chego em cima da hora. Tipo eu até chego em cima da pinta, só que o resto do pessoal já ta todo lá me esperando. É por isso que eu sou master na arte de inventar história pra justificar atraso. Porque meu caso é crônico, eu tenho o gene do atraso no meu dna.
A minha desculpa favorita é também a melhor, porque você na verdade não precisa inventar história nenhuma; ela é muito boa pra aquele grupo de pessoas que já te conhece muito bem e adora dizer que você está sempre atrasada. Quando as pessoas perguntam: "-Que é isso Graziella? Quase uma hora de atraso!" Eu passo batido com a cara mais estressada do mundo e digo: "-Já basta o que me aconteceu!" Isso costuma calar a boca deles por um tempo, mas não é uma desculpa que possa ser usada com freqüência.
Uma outra que funciona muito e também usa o mistério como matéria prima, é aquela que você chega no compromisso com uma expressão de angústia, tensão, vulnerabilidade e uma pitada de ódio. Os que chegaram cedo geralmente já carrancudos, são surpreendidos por este inesperado estado de humor. E perguntam: "-Que houve?" Você simplesmente diz: "-Me dá 30 segundos?" E aí você faz o seguinte: desaba em um choro desabafo. Deixe escapar palavras como exausta, esgotada, tudo errado e tudo nas minhas costas; o restante pode ser ininteligível. Mas tem que ser coerente, porque a primeira pessoa a acreditar na mentira, é o mentiroso.
O que mais me intriga é que, neste mundo de ilusões, quanto mais mirabolante a história, maior as chances de as pessoas acreditarem nela. Por exemplo, se você disser: "-Ah, desculpa, é que tinha um caminhão quebrado na marginal, tava tudo parado...", as chances de as pessoas acreditarem são ínfimas. Agora se você disser: "- Não, você não vai acreditar, você vai achar que eu tô mentindo, mas tinha um caminhão quebrado na marginal. Fiquei horas pra ultrapassar este bendito caminhão, quando eu finalmente consegui, percebo que a gasolina está acabando. Foi o tempo de levar o carro pro acostamento, fodeu. Saio a pé na marginal pra buscar gasolina lá na Rebouças, volto no meio daquele puta trânsito, com um saquinho de gasolina na mão, chego lá: cadê o carro? Guinchado. Aí eu ligo e fico sabendo que pra liberar o carro tem que pagar uma multa! Aí toca pegar um táxi e ir até o Detran, uma fila até a Bienal pra pagar a bosta da multa, aí volta pro estacionamento lá do lado do Playcenter, até liberar o carro... Parece mentira, né? Puta estas coisas só aconetecem comigo..." Mas observe que esta desculpa é pra ser usada naqueles dias em que a gente se atrasa muito.
Quando as desculpas ficam desgastadas, ninguém mais acredita em nada, está todo mundo careca de saber que você é atrasado patológico, que é mais fácil a Marta se reeleger do que você chegar na hora, a melhor saída é reverter o jogo. Você chega, com a cara mais sincera e honesta que vc tiver no acervo, olha os colegas no fundo do olho e diga: "- Não tem desculpa, amigo, eu me atrasei mesmo. A culpa é toda minha, e eu só posso dizer que sinto muito."
Gera um constrangimento, eles sentir-se-ão culpados por julgá-lo mentiroso. Pedirão desculpas por nada e o tratarão melhor por você ser tão sincero. Todas as suas mentiras anteriores passarão a ser verdades incontestáveis, uma vez que quando a culpa é sua, você tem a hombridade de assumi-la.
Isso zera o jogo, cala a boca deles por mais um tempo, e você está livre para começar a construir um arsenal de desculpas novinho em folha.
Domingo, Janeiro 25, 2004
A Decisão
Minha mãe sempre me disse que a gente não deve sofrer por antecipação.Linda e poética teoria, com sinos budistas tocando ao fundo. Na prática, desde cedo a coisa se mostra bem diferente. Basta a gente entrar no pré-primário e o mundo indaga: -O que é que você vai ser quando crescer? Já não bastasse o esforço pra aguentar até o prometido sábado no Playcenter. Estes conceitos, incutidos desde muito cedo, ficam gravados em nosso cérebro feito a música da cantora Luka.
Se a gente conhece uma pessoa bacana, porque não investir? Se a investida dá certo, porque não namorar? Se o namoro vai bem, então: -Não vão casar?!? Daí a gente casa, e quinze minutos depois começa o aluguel: -E a cegonha, chega quando?
É uma corrida desenfreada: vamos crescer logo, pra namorar logo, pra casar logo, pra ter filho logo, pra ficar velho logo, pra morrer logo, pra ressucitar logo...
Mas a verdade é que chegamos naquela idade em que algumas verdades se revelam pra nós feito os seios de Dercy Gonçalves: nuas, cruas, apavorantemente verdadeiras e sem o menor pudor. A vida é uma estrada de mão única, e o tempo não está passando mais devagar.
Geralmente quando isto acontece, a gente está naquela fase da relação que a gente nem lembrava que um dia fosse chegar. Passados os momentos lindos, os péssimos, os medonhos e os lindos novamente, o barquinho da vida a dois navega por águas caribenhamente calmas. Justamente quando as finanças estão equilibradas, os horários ajustados e os opostos tolerados,é nesta hora que as vontades coincidem: -Que tal se a gente tentasse ter um bebê?
Quando um casal que pensa em "um dia" ter filhos, decide que chegou a hora de ter filhos, um misto de alegria e pavor inunda suas almas. Involuntariamente, é dado início a uma vasta e desalentadora lista de prós e contras. Com os contras ocupando páginas e páginas, e os prós ocupando duas linhas.
Nesta hora nossa atenção se volta para os casais com filhos, e principalmente, para os filhos destes casais. Passamos a frequentar até festinhas infantis, nas quais o raro exemplar de criança que reúna mais de duas qualidades, tais como ser meiga, inteligente e bonitinha, é observada atentamente e até fotgrafada, além de ser alvo de comentários que persistem até o meio da semana: -Bonitinha aquela filha do Tiago e da Chris, fofa! -Inteligente! -E meiga!
Internamente a música é outra: -Será que os nossos serão assim?
Mas nunca pensamos em nós. Como seremos assim que nos tornarmos pais de crianças, independentemente de serem estas meigas, hiperativas ou simplesmente indomáveis?
A resposta é: pare de olhar para os petizes, e deite seu olhar sobre estes pais que vês a tua frente, e estarás diante de um espelho.
Eu? Deixando meu filho correr entre os convivas feito um motoboy na Rebouças, derrubando os copos de coca-cola como se fossem espelhos retrovisores?
Sim, tu mesmo. E pronunciarás coisas como: -Meu filho é totalmente sinestésico! ou -Prefiro roupas mais orgânicas. E falarás sobre pediatras holísticos, métodos indígenas de alimentação e sistema cognitivo. E sobre comunicação por sinais e curva de crescimento.
Acredite em mim; eu também achei que comigo fosse ser diferente.
Sábado, Janeiro 24, 2004

Quinta-feira, Janeiro 22, 2004
em forma para o ano novo
O trabalho doméstico, o mais extenuante e desgraçadamente indigno dos exercícios físicos, ainda tem a ousadia de ser insignificante no quesito "queima de calorias". Você pode passar o aspirador nos quatro cantos do mundo, limpar as vidraças de uma catedral, trocar umas 16 fraldas e lavar 5 pijaminhas sujos de cocô, e terá queimado o equivalente a meio brigadeiro. Será um sinal? Será este o definitivo recado divino para que as mulheres, as mais propensas dentre todas as criaturas da natureza a acumular gordura na região que vai do abdomen à bunda, entendam de uma vez por todas que não foram moldadas para as atividades do lar? E, pré-historicamente sonsas que são, caíram mais uma vez no papo-aranha dos machos que, tacape em punho e pose de guerreiro: -Vou caçar e já volto!, traiçoeiramente se eximiram das funções do lar só pra poder passar mais tempo na caverna da esquina tomando um destilado de algum cogumelo alucinógeno? Por outro lado, se nós não fizermos este trabalho sujo, quem o fará? Se depender do colega ao lado, aquele que acabou de embolar a toalha molhada junto com os lençóis da cama que ele não arrumou, só pra abrir espaço pra jogar a roupa suada do futebol, pode esperar sentada. As chances de ele fazer xixi sentado só pra não ter que limpar as bordas da privada depois são bem maiores. A preguiça cresce nos homens de maneira proporcional à barriga. Começa como uma pequena azeitona, vai inchando, inchando, e quando você se dá conta, lá está ela, aboletada em cima do cinto, esparramada para os lados, quase alcançando aquilo que a esta altura já pode ser chamado de "um belo par de seios". A verdade é que se não tivéssemos as responsabilidades domésticas além de nossas carreiras para administrar, estaríamos aonde? Provavelmente pertenceríamos àquele seleto grupo de mulheres que frequentam academias de ginástica. Você provavelmente conhece uma dessas. Aliás, quem é que não conhece um destes espécimes? Ou melhor, quem já não tentou ser um deles? Esta decisão (ou tentativa de decisão) acompanha o calendário lunar ocidental. Por volta do dia 25 de dezembro, estressados com os acúmulos de um ano desgastante e de gordura ao redor da cintura, uma sensação profunda de frustração nos invade. Prontamente somos bombardeados pelos meios de comunicação com mensagens positivas e otimistas, de um novo dia, um novo ano que vai nascer, onde todos os nossos sonhos serão verdade. E já que a festa é sua, a festa é nossa, é de quem vier, você se sente adequado e capaz de ser aceito em qualquer grupo social, e corre para a primeira academia de ginástica que aparece na sua frente, munido de 12 folhas de cheque para se matricular logo no plano anual. Lógico, o futuro já começou! No primeiro dia, com uma certa timidez porém cheios de energia, o primeiro passo é encontrar um modelo a ser seguido. O bom modelo deve ser para nós um guia espiritual a distância, um guru que vai nos guiar pelos áridos quilômetros que iremos percorrer na esteira ergométrica em cada um dos dias daquele plano anual. Sim, porque nosso plano é honrar cada centavo daqueles 12 cheques e, para tanto, nosso modelo deve ser um frequentador assíduo da academia. De preferência, na condição de semi-deus do condicionamento físico, ele deve exercitar sua onipresença nos mais variados horários, para evitar que caso você tenha algum imprevisto e precise chegar mais tarde, ele não esteja lá. O bom modelo também é popular, querido e conhece todos os alunos da academia pelo nome, menos você. Você ele ainda não conhece, já que este é apenas seu primeiro dia; até o fim da semana, admirado com sua assiduidade e força física, ele certamente virá se apresentar, até porque ao cabo desta mesma semana, você terá atraído tantos olhares para o seu abdomen perfeito quanto ele. O bom guru não sua, sorri e tem as roupas esportivas mais incríveis, aquelas que você adoraria saber onde comprar pra vestir quando sua bunda estiver tão compacta quanto um bloco de cimento. E na hora do exercício assume um ar tão grave, circunspecto, beirando o sagrado, que te faz acreditar que este caminho não é apenas em prol da saúde, mas também da espiritualidade. Seremos pessoas melhores, mais auto-confiantes, mais serenas e o mais importante, sem nem um pingo de celulite. E isso vale o sacrifício, vale cada gota do suor que escorre da testa, das axilas, escorrega pelas costas, empoça embaixo do queixo, pinga no tênis. Vale a exaustão, a falta de ar, aquela dor que começa a dar dos lados da barriga dando a sensação de que se dermos mais um passo, viremos a falecer. É geralmente nessa hora que você olha para o reloginho da esteira e percebe que ele está marcando apenas 7 minutos corridos. É nessa hora que começa seu declínio.
O trabalho doméstico, o mais extenuante e desgraçadamente indigno dos exercícios físicos, ainda tem a ousadia de ser insignificante no quesito "queima de calorias". Você pode passar o aspirador nos quatro cantos do mundo, limpar as vidraças de uma catedral, trocar umas 16 fraldas e lavar 5 pijaminhas sujos de cocô, e terá queimado o equivalente a meio brigadeiro. Será um sinal? Será este o definitivo recado divino para que as mulheres, as mais propensas dentre todas as criaturas da natureza a acumular gordura na região que vai do abdomen à bunda, entendam de uma vez por todas que não foram moldadas para as atividades do lar? E, pré-historicamente sonsas que são, caíram mais uma vez no papo-aranha dos machos que, tacape em punho e pose de guerreiro: -Vou caçar e já volto!, traiçoeiramente se eximiram das funções do lar só pra poder passar mais tempo na caverna da esquina tomando um destilado de algum cogumelo alucinógeno? Por outro lado, se nós não fizermos este trabalho sujo, quem o fará? Se depender do colega ao lado, aquele que acabou de embolar a toalha molhada junto com os lençóis da cama que ele não arrumou, só pra abrir espaço pra jogar a roupa suada do futebol, pode esperar sentada. As chances de ele fazer xixi sentado só pra não ter que limpar as bordas da privada depois são bem maiores. A preguiça cresce nos homens de maneira proporcional à barriga. Começa como uma pequena azeitona, vai inchando, inchando, e quando você se dá conta, lá está ela, aboletada em cima do cinto, esparramada para os lados, quase alcançando aquilo que a esta altura já pode ser chamado de "um belo par de seios". A verdade é que se não tivéssemos as responsabilidades domésticas além de nossas carreiras para administrar, estaríamos aonde? Provavelmente pertenceríamos àquele seleto grupo de mulheres que frequentam academias de ginástica. Você provavelmente conhece uma dessas. Aliás, quem é que não conhece um destes espécimes? Ou melhor, quem já não tentou ser um deles? Esta decisão (ou tentativa de decisão) acompanha o calendário lunar ocidental. Por volta do dia 25 de dezembro, estressados com os acúmulos de um ano desgastante e de gordura ao redor da cintura, uma sensação profunda de frustração nos invade. Prontamente somos bombardeados pelos meios de comunicação com mensagens positivas e otimistas, de um novo dia, um novo ano que vai nascer, onde todos os nossos sonhos serão verdade. E já que a festa é sua, a festa é nossa, é de quem vier, você se sente adequado e capaz de ser aceito em qualquer grupo social, e corre para a primeira academia de ginástica que aparece na sua frente, munido de 12 folhas de cheque para se matricular logo no plano anual. Lógico, o futuro já começou! No primeiro dia, com uma certa timidez porém cheios de energia, o primeiro passo é encontrar um modelo a ser seguido. O bom modelo deve ser para nós um guia espiritual a distância, um guru que vai nos guiar pelos áridos quilômetros que iremos percorrer na esteira ergométrica em cada um dos dias daquele plano anual. Sim, porque nosso plano é honrar cada centavo daqueles 12 cheques e, para tanto, nosso modelo deve ser um frequentador assíduo da academia. De preferência, na condição de semi-deus do condicionamento físico, ele deve exercitar sua onipresença nos mais variados horários, para evitar que caso você tenha algum imprevisto e precise chegar mais tarde, ele não esteja lá. O bom modelo também é popular, querido e conhece todos os alunos da academia pelo nome, menos você. Você ele ainda não conhece, já que este é apenas seu primeiro dia; até o fim da semana, admirado com sua assiduidade e força física, ele certamente virá se apresentar, até porque ao cabo desta mesma semana, você terá atraído tantos olhares para o seu abdomen perfeito quanto ele. O bom guru não sua, sorri e tem as roupas esportivas mais incríveis, aquelas que você adoraria saber onde comprar pra vestir quando sua bunda estiver tão compacta quanto um bloco de cimento. E na hora do exercício assume um ar tão grave, circunspecto, beirando o sagrado, que te faz acreditar que este caminho não é apenas em prol da saúde, mas também da espiritualidade. Seremos pessoas melhores, mais auto-confiantes, mais serenas e o mais importante, sem nem um pingo de celulite. E isso vale o sacrifício, vale cada gota do suor que escorre da testa, das axilas, escorrega pelas costas, empoça embaixo do queixo, pinga no tênis. Vale a exaustão, a falta de ar, aquela dor que começa a dar dos lados da barriga dando a sensação de que se dermos mais um passo, viremos a falecer. É geralmente nessa hora que você olha para o reloginho da esteira e percebe que ele está marcando apenas 7 minutos corridos. É nessa hora que começa seu declínio.